Multilingual Folk Tale Database


Information

Author: Adolfo Coelho - 1879

Original version in Portuguese

Source: Contos Populares Portuguezes (nr. 34)

Country of origin: Portugal

Story types:
  Vanished Husband Learned of by Keeping Inn (ATU 425D)
  King Dragon (ATU 433B)

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O Príncipe Sapo

Adolfo Coelho

Era uma vez um rei que não tinha filhos e tinha muita paixão por isso, e a mulher disse que Deus lhe desse um filho mesmo que fosse um sapo.

Houve de ter um filhinho como um sapo; depois botaram as folhas a ver se havia quem o queria criar, mas ninguém se animava a vir. O rei, vendo que o sapito do filho não havia quem o queria criar, anunciou que, se houvesse alguma mulher que o quisesse criar, lho dava em casamento e lhe dava o reino. Nisto aí apareceu uma rapariga e disse:

— Se Vossa Real Majestade me dá o filho, eu animo-me a vi-lo criar.

O rei disse que sim e a rapariga veio criar o sapito. Depois passou algum tempo e ele foi crescendo e ela lavava-o e esmerava-o como se ele fosse uma criança. Foi indo e ele tinha uns olhos muito bonitos e falava, e a rapariga dizia:

— Os olhos dele e a fala não são de sapo.

Já estava grande, passaram-se anos e ela, uma noite, teve um sonho em que lhe diziam ao ouvido que o sapo era gente, mas pela grande heresia que a mãe disse que estava formado em sapo, que se o rei lho desse para ela casar com ele que casasse e quando fosse na primeira noite que se fosse deitar, que ele tinha sete peles e ela levasse sete saias e quando ele dissesse: «Tira uma saia», lhe dissesse ela: «Tira uma pele.»

Assim foi e casou o sapo com a rapariga e na noite do casamento ele pediu-lhe que tirasse ela as saias e ela foi-lhe pedindo que tirasse as peles e depois de ele as tirar ficou um homem.

Ao outro dia ele tornou a vestir as peles e ficou outra vez sapo. E ela disse-lhe:

— Tu para que vestes as peles? Assim és tão bonito e vais ficar sapo.

— Assim me é preciso, cala-te.

Ela, assim que se pôs a pé, foi contar tudo à rainha, e o rei mais a rainha disseram-lhe:

— Quando hoje te deitares, diz-lhe o mesmo e depois de ele tirar as peles e estar a dormir, deixa a porta do quarto aberta que nós queremos ir vê-lo.

Foram-no ver e viram que ele era homem. Ao outro dia o príncipe tornou a vestir as peles e vai o pai disse-lhe:

— Tu, porque vestes as peles e queres ser feio?

— Eu quero ser sapo, porque o meu pai tem mão interior e, se eu fico bonito, impõem a minha mulher.

O rei disse-lhe:

— Eu não a impunha, mas queria que tu ficasses bonito.

Depois, como viram que ele não queria deixar de ser sapo, pediram a ela que, assim que ele adormecesse, lhes trouxesse as peles para eles as queimarem. Ela assim fez e eles botaram as peles ao fogo aceso. De manhã vai ele para vestir as peles e não as acha.

— Que é das peles?

— Vieram aqui o teu pai e a tua mãe e levaram-nas.

— Mal hajas tu se lhas destes, mais quem te deu o conselho. Adeus. Se alguma vez me tornares a ver, dá-me um beijo na boca.

A mulherzinha ficou mas o rei e a mulher, assim que viram que o filho faltou, puseram-na fora da porta. Ela, coitada, não tinha com que se tratar; o que era do rei lá ficou e ela estava muito pobrezinha. A todas as pessoas que via perguntava se tinham visto um homem assim e assim e lá lhe dava as notícias do príncipe. Vieram por onde ela estava uns cegos e ela fez-lhes a pergunta. Os moços dos cegos disseram-lhe:

— Nós vimos no rio Jordão um homem e certamente era ele; estava botando fatias de pão para trás das costas e dizendo: «Pela alma de meu pai, pela alma de minha mãe, pela alma de minha mulher.»

Ela disse-lhes:

— Vocês quando tornam para essa banda?

— Nós para o fim do outro mês voltamos para lá; havemos de passar por esse rio.

A mulherzinha aprontou-se e foi com eles. Chegou lá e era o príncipe.

Ela chegou ao pé dele e deu-lhe o beijo na boca como ele tinha dito e disse-lhe:

— Ora vamos embora, que se acabou o nosso fado.

E foram para casa e foram muito felizes e tiveram muitos filhos.