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Information

Author: Jacob & Wilhelm Grimm - 1812

Translated into Portuguese

Original title (German):
Die vier kunstreichen Brüder

Country of origin: Germany

Story type: The Skillful Brothers (ATU 653)

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Os quatro irmãos habilidosos

Jacob & Wilhelm Grimm

Era uma vez um pobre homem que tinha quatro filhos; quando já estavam crescidos, disse-lhes:

- Meus caros filhos, já é tempo de que cuideis de vossa vida; ide, pois, pelo mundo afora. Eu nada tenho para vos dar; portanto, viajai para algum país estrangeiro e aprendei um ofício que vos permita viver honestamente.

Os quatro irmãos despediram-se do pai, tomaram dos bordões e, juntos, saíram da cidade. Andaram algumas horas e chegaram a uma encruzilhada de onde partiam quatro estradas divergentes. Então, Pedro, que era o mais velho, disse aos irmãos:

- Agora é melhor separarmo-nos; cada qual irá para um lado tentar fortuna; daqui a quatro anos, no mesmo dia e na mesma hora de hoje, devemos nos encontrar neste mesmo lugar.

Cada qual seguiu por um caminho. O mais velho logo encontrou um homem, que lhe

perguntou aonde ia e o que tencionava fazer.

- Vou à procura de um ofício - respondeu o moço.

- Pois bem, - disse o homem - vem comigo e aprenderás o ofício de ladrão.

- Não, não, - respondeu Pedro - essa é uma profissão pouco honrada e, no fim da festa,

acaba-se feito badalo na forca.

- Oh, - retorquiu o outro - não deves temer a forca; eu te ensinarei somente como deves fazer para apropriar-te de objetos mais escondidos em lugar onde ninguém poderá ir no teu encalço.

Pedro deixou-se persuadir e, nessa escola, tornou-se logo tão hábil na arte de roubar que nada mais estava em segurança desde que o desejasse.

O segundo, que se chamava João, também encontrou um homem no seu caminho, que

lhe perguntou para onde ia e o que desejava aprender.

- Vou à procura de um ofício, mas ainda não sei qual.

- Então vem comigo e aprenderás a ser um bom astrônomo; não há coisa melhor;

nada haverá de oculto para ti.

João aceitou e seguiu o mestre. Após algum tempo, tornou-se astrônomo perfeito e,

quando apto a cuidar de si, quis continuar a viagem; o mestre fez-lhe presente um

telescópio, dizendo:

- Com este aparelho poderás ver tudo o que ocorre na Terra e no Céu e nada poderá

ficar oculto de ti.

O terceiro irmão, chamado José, entrou como aprendiz em casa de um caçador, que tão bem lhe ensinou tudo o que se relacionava com a arte de caçar, que ele se tornou caçador perfeitamente adestrado e insuperável. Quando terminou o aprendizado, despediu-se do mestre e este presenteou-o com uma espingarda, dizendo:

- Esta espingarda nunca falha; com ela acertarás qualquer alvo.

Miguel, o mais moço dos quatro irmãos, por sua vez encontrou um homem que lhe fez as mesmas perguntas e lhe sugeriu:

- Não gostarias de aprender o ofício de alfaiate?

- Não é do meu agrado; - respondeu o rapaz - não me entusiasma a idéia de ficar o dia

inteiro curvado com uma agulha na mão!

- Qual nada! - respondeu o homem - Isto é o que pensas; comigo aprenderás uma arte

muito diversa. Uma arte digna e muito apreciada, mesmo honrosa!

O rapaz convenceu-se; seguiu o mestre e acabou por se tornar um alfaiate de primeira ordem e muito hábil. Findo o tempo de aprendizado, despediu-se e o mestre presenteou-o com uma agulha, dizendo:

- Com esta agulha podes coser seja lá o que for; quer seja mole como um ovo ou duro

como o aço e a emenda ficará tão perfeita que ninguém poderá distinguir.

Entretanto, os quatro anos passaram e, no dia marcado, os quatro irmãos encontraram-se no lugar combinado. Cheios de alegria, abraçaram-se e beijaram-se, dirigindo-se depois para a casa do pai. Este ficou radiante ao tornar a vê-los.

- Que bom vento vos trouxe novamente à casa? - disse, muito satisfeito.

Os filhos contaram-lhe, então, todas as peripécias ocorridas com eles e a espécie de ofício que tinham aprendido. Estavam justamente sentados à sombra de uma frondosa árvore que havia em frente da casa e o pai, querendo certificar-se sobre o que diziam, propôs:

- Desejo por à prova a vossa habilidade. Lá em cima, no topo da árvore, entre dois galhos, há um ninho de pintassilgos; dize-me, meu filho, - falou o pai dirigindo-se ao segundo - podes dizer-me quantos ovos há dentro dele?

João, o astrônomo, pegou na luneta, dirigiu-se para a árvore e disse no fim de alguns segundos:

- Há cinco.

- Tu, - disse o pai ao mais velho - vai retirar os ovos, mas sem incomodar o pássaro que

lá está chocando.

O ladrão perito trepou pela árvore acima e, sem incomodar o pássaro, que nada percebeu, retirou os cinco ovos que estava chocando e trouxe-os para o pai, que os colocou sobre a mesa, um em cada ângulo e o quinto no centro. Dirigindo-se ao terceiro filho, disse:

- Quanto a ti, tens de os furar pelo meio, com um só tiro de tua espingarda.

O caçador apontou a espingarda e furou os ovos exatamente como lhe pedia o pai, acertando todos os cinco com um só tiro. (Com certeza ele possuía aquela espécie de pólvora que dobra as quinas!)

- Agora a tua vez, Miguel - disse o pai. - Com tua famosa agulha, tens de coser as cascas dos ovos e os passarinhos que estão dentro, de maneira que o tiro não os prejudique.

O alfaiate pegou a agulha e costurou tudo como exigia o pai. Quando terminou, Pedro tornou a ir por os ovos no ninho tão de leve que o pássaro não se apercebeu e continuou a chocar; alguns dias depois os filhotes saíram da casca como se não tivessem sido furados e tinham uma listrazinha vermelha em volta do pescoço, no lugar onde o alfaiate fizera a costura.

- Muito bem, - disse o pai - só posso fazer os melhores elogios. Aproveitastes bem o vosso tempo, aprendendo com perfeição. Não sei a qual hei de dar o prêmio de destreza; veremos isso quando tiverdes oportunidade de empregar vossa arte.

Algum tempo depois, o país todo estava em alvoroço, porque a filha do rei tinha sido roubada por um dragão. O rei, tremendamente aflito, mandou anunciar que aquele que a trouxesse de volta casaria com ela e, mais tarde, herdaria o trono.

- Eis uma ótima ocasião para nos distinguirmos; - disseram os quatro irmãos -

procuraremos juntos salvar a princesa.

- Vou saber onde já onde ela se encontra - disse o astrônomo.

Foi buscar a luneta e, olhando em todos os sentidos, disse:

- Estou vendo-a; está sentada sobre um rochedo, no meio do mar, distante daqui

muitas léguas; o terrível dragão está montando guarda junto dela.

Apresentaram-se ao rei e pediram-lhe um navio; assim que o obtiveram, puseram-se

a navegar em direção ao rochedo.

A princesa continuava lá sentada e o terrível animal, deitado ao lado dela, dormia com

a cabeça no seu regaço. O caçador disse:

- Nessa posição em que se encontra, não posso atirar, pois mataria também a princesa.

- Deixe isto por minha conta - disse o perito ladrão.

Saltou para a terra, esgueirou-se sorrateiramente e retirou a princesa tão habilmente e

com tanta destreza que o monstro não se apercebeu e continuou roncando.

Radiantes de alegria, carregaram-na correndo para bordo e, soltando todas as velas,

fizeram-se ao largo.

Mas o dragão, despertando pouco depois e não vendo mais a princesa, saiu a

persegui-los, rugindo furiosamente pelo espaço.

Quando já pairava por cima do navio e ia precipitar-se sobre os fugitivos, o caçador apontou-lhe a espingarda e atingiu-o em pleno coração. O monstro despencou, fragorosamente, sem vida; mas era tão colossal que, ao cair, despedaçou completamente o navio.

Felizmente, eles conseguiram agarrar-se a algumas tábuas e ficaram flutuando no vasto mar. Contudo, o perigo era imenso, mas o alfaiate, sem perder tempo, pegou a agulha prodigiosa e, num abrir e fechar de olhos, coseu solidamente os destroços do navio, recolheu nele toda a ferragem, cosendo-a muito bem nos respectivos lugares. Executou o trabalho com tanta habilidade que, em breve, o navio ficou em condições de navegar e assim puderam voltar para casa.

Ao ver a querida filha, o rei ficou transportado de alegria e disse aos quatro irmãos:

- Cumprirei a promessa. Um dos quatro a receberá por esposa, mas, qual será, deveis decidi-lo entre vós.

Então rebentou entre eles tremendo litígio, porque cada qual tinha as suas pretensões.

O astrônomo dizia:

- Se eu não tivesse descoberto com a minha luneta onde se encontrava a princesa,

todas as vossas artes seriam vãs; portanto, sou eu que a devo desposar.

- De que serviria saber onde ela estava, - protestou o ladrão - se eu não a tivesse subtraído ao dragão? Portanto, ela é minha.

O caçador, por sua vez, dizia:

- Qual nada; o monstro teria devorado todos vós e mais a princesa, se o tiro de minha espingarda não o tivesse matado; por conseguinte, ela me pertence.