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Author: Adolfo Coelho - 1879

Original version in Portuguese

Source: Contos Populares Portuguezes (nr. 18)

Country of origin: Portugal

Story type: Tidings Brought to the King: You Said it, not I (ATU 925)

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Os Dois Irmãos

Adolfo Coelho

Era uma vez dois irmãos que eram soldados num exército estrangeiro, mas que eram tão maltratados que até fome passavam. Um dia disse o mais novo para o mais velho:

Irmão, isto não se pode sofrer; é melhor nós fugirmos e irmos correr esse mundo de Cristo.

Respondeu o mais velho:

Não, que nos podem apanhar e castigar-nos.

O mais novo, porém, não o quis atender e um belo dia fugiu. Caminhou, caminhou sem encontrar que comer até que foi ter à porta de uma grande quinta onde avistou um formoso pomar em que as laranjeiras vergavam ao peso das laranjas. Bateu à porta e tornou a bater e como lha não viessem abrir, resolveu-se a saltar o muro para ir comer laranjas. Como não lhe aparecesse ninguém, ele comeu a fartar e escondeu entre o fato as laranjas que pôde, para continuar a sua jornada; mas, ao chegar ao muro por onde tinha entrado, por mais esforços que fizesse não lhe foi possível saltar e ouviu uma voz que lhe dizia:

Para fora não, para dentro sim.

Ele respondeu:

Se é pelas laranjas, elas aí ficam.

E dito isto, deitou no chão as laranjas que levava consigo.

Passaram-se muitas horas e ele, vendo que não conseguia sair, foi passear pela quinta e então depararam-se-lhe vistosos jardins, lindos pomares e verdes hortas.

Estava já cansado de tanto andar, até que chegou a um lindo palácio e entrou e foi dizendo:

Com licença, com licença.

Ninguém lhe respondia.

Afinal foi ter a uma sala onde encontrou uma linda menina que estava bordando. Ele desfez-se em desculpas e contou-lhe o que lhe tinha sucedido; ela então respondeu-lhe que não tinha nada a desculpar, antes estimava muito vê-lo e que, se ele quisesse, podia ficar naquele palácio. Como se decidisse a ficar, ela levou-o a uma varanda e mostrou-lhe os jardins, hortas e pomares, e, como ele se mostrasse maravilhado de tudo quanto via, perguntou-lhe ela o que de tudo quanto tinha visto desde que entrara no palácio lhe tinha mais agradado. O rapaz, como a fome apertasse, respondeu que o que mais lhe agradava eram as couves que ele via na horta.

À ceia mandou a menina que lhe apresentassem na mesa um prato de couves e combinou com a criada que quando estivessem à mesa apagasse ela a luz. Estavam pois a menina e o rapaz para cear e a criada, fingindo que ia espevitar a luz, apagou-a; então a menina levantou-se e disse:

Cada qual se agarre à coisa de que mais gostar.

E o soldado agarrou-se ao prato das couves. A menina, despeitada, disse-lhe:

Visto que gostais tanto de couves, é bem que eu vos mostre as que ainda não viste.

E nisto conduziu-o a uma varanda que deitava para um curral de porcos e deitou-o para lá.

Por mais que o pobre soldado pedisse à menina que o tirasse dali, ela não o quis atender e lá o deixou até ao dia seguinte.

O irmão mais velho do rapaz, quando deu pela falta dele, fugiu também; seguiu os mesmos caminhos que o irmão seguira e sucederam-lhe as mesmas aventuras; quando, porém, a menina do palácio lhe disse que se agarrasse àquilo de que mais gostasse, ele agarrou-se a ela e disse-lhe que de tudo o que vira no palácio e na quinta era ela que mais lhe agradara. Então a menina respondeu-lhe que estava encantada naquele palácio até que lá fosse ter um homem que gostasse mais dela do que das riquezas que a cercavam; que era filha de um rei, o qual determinara que houvesse um torneio para ela escolher entre os cavaleiros o que devia ser seu esposo e portanto que se apresentasse ele muito bem vestido, que entre todos só havia de escolher a ele.

À noite mandou a princesa preparar uma rica cama em quarto fronteiro ao dela; mas ele, quando ia para se deitar, em vez de ir para o quarto que lhe destinaram, foi para o da princesa.

Esta, quando lá o viu, disse-lhe:

Enganaste-te, que não era este o quarto que te estava destinado, mas fica, pois vais em breve ser meu esposo.

Depois contou-lhe o que sucedera com o outro soldado e ele logo de madrugada pediu para o ir ver e, ao reconhecer o seu irmão, pediu à princesa que lhe desse a liberdade, o que ela fez, dando-lhe muitas riquezas e mandando-o que seguisse o seu caminho.

No dia seguinte disse ao seu escolhido que era preciso que ele saísse do palácio e que fosse para tal hospedaria, que, em sendo o dia do torneio, o iria avisar, pois convinha que o rei seu pai não soubesse o que se tinha passado. Depois de se abraçarem, separaram-se.

O soldado foi ter à tal hospedaria e, como a dona da casa tivesse uma filha muito linda e como ela percebesse que o soldado tinha muito dinheiro, tais artes empregaram para prender o rapaz na hospedaria que até lhe deram a beber água com dormideiras a ponto que ele não podia acordar e dormia de noite e de dia.

Como se aproximasse o dia do torneio, a princesa foi procurar o soldado e responderam-lhe que estava a dormir. A princesa, para não o acordar, voltou no dia seguinte e deram-lhe a mesma resposta. Ela então foi ter ao quarto onde ele estava e escreve-lhe no punho da camisa: «Tal dia é o torneio.» Ele, quando acordou, reparou no que estava escrito no punho da camisa, recordou-se do ajuste e levantou-se da mesa sem atender às donas da casa, que lhe pediam que antes de partir bebesse uma gota de água. Elas queriam era pô-lo a dormir.

Chegado o dia do torneio, o soldado vestiu um fato mais rico ainda do que o dos fidalgos que iam ao torneio; montou um rico cavalo e foi passear debaixo da janela da princesa, mas ia tão bem vestido que ela não o conheceu. Então, o rei perguntou à princesa qual era o seu escolhido, ao que ela respondeu que o seu escolhido não aparecera.

Findas o torneio, convidou o rei todos os cavaleiros para jantar. O soldado foi sentar-se perto da princesa, e mostrou-lhe a manga da camisa e então ela, levantando-se, disse, indicando o soldado: «Eis aqui o escolhido do meu coração; é este o único homem que me preferiu às riquezas que me cercam.» Casaram e viveram no meio das maiores felicidades.