Multilingual Folk Tale Database


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Author: Adolfo Coelho - 1879

Original version in Portuguese

Source: Contos Populares Portuguezes (nr. 26)

Country of origin: Portugal

Story type: Rescue by the Sister (ATU 311)

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O Colhereiro

Adolfo Coelho

Houve noutros tempos um colhereiro que tinha por costume ir a uma mata muito longe da sua casa para apanhar madeira para fazer colheres.

Certo dia, quando ele estava cortando um pedaço de um castanheiro muito antigo, notou que no tronco havia um grande buraco. Cheio de curiosidade, o colhereiro quis ver o que havia dentro, mas mal tinha entrado quando lhe apareceu um mouro encantado, e com voz medonha lhe disse: «Já que te atreves a penetrar no meu palácio, ordeno-te que me tragas aqui a primeira coisa que te aparecer ao chegares a tua casa, e se não cumprires fica certo que morrerás dentro em três dias.»

Foi-se o colhereiro para sua casa, onde tinha três filhas muito lindas, e uma cadelinha que sempre o vinha esperar à entrada da porta.

Nesse dia, porém, contra o seu costume, quem lhe apareceu à entrada da porta foi a filha mais velha. Então ele, chorando, contou à filha tudo o que lhe tinha acontecido e pediu-lhe que fosse ela, senão que o mouro o mataria e ficavam ela e as irmãs sem amparo.

A filha aprontou-se logo para ir e depois de ter abraçado as irmãs partiu para o palácio do mouro.

Deixamos agora o colhereiro com as duas filhas e vamos ver o que faz o mouro à outra filha.

Logo que ela chegou, deu-lhe as chaves de todas as salas do palácio e deitou-lhe ao pescoço um cordão de ouro fino com a chave de uma sala, proibindo-a de entrar nela, pois se lá fosse morreria.

Um dia em que o mouro tinha saído a infeliz rapariga, cheia de curiosidade, quis ver o que estava na tal sala. Entrou e viu muita gente com as cabeças cortadas; ela, toda horrorizada, fechou a porta e pôs outra vez a chave ao pescoço; mas o mouro, quando voltou ao palácio, foi ver a dita chave e viu que ela tinha uma mancha de sangue. Então, sem dar uma só palavra, cortou a cabeça à pobre rapariga e foi deitá-la na mesma sala aonde ela tinha entrado.

Voltando ao colhereiro, sabereis que ele foi ter com o mouro para que lhe desse notícias da filha, e ele lhe respondeu: «Vai buscar a tua filha do meio para vir fazer companhia à que cá está, pois ela anda muito triste com saudades dela».

Trouxe o colhereiro a filha, e a ela sucedeu-lhe o mesmo que tinha sucedido à sua irmã. Restava ao colhereiro só a filha mais nova, mas como o mouro lhe ordenasse que lha levasse também, levou-lha. Logo que ela chegou, o mouro fez-lhe as mesmas recomendações que tinha feito às outras irmãs.

A rapariga, como haviam feito as irmãs, entrou na sala dos mortos e viu-as degoladas, mas notou que elas ainda estavam quentes e teve desejos de as tornar à vida.

Na mesma sala havia uma armário contendo pucarinhos com o sangue dos mortos; então ela, vendo dois pucarinhos com o nome das irmãs, pegou nas cabeças delas, juntou-as aos corpos e despejou-lhes o sangue no pescoço e logo as irmãs tornaram à vida. Depois recomendou-lhes que não falassem que ela havia de arranjar meio de as mandar para casa do pai. As irmãs recomendaram-lhe que limpasse a chave para o mouro não saber o que ela tinha feito. Voltou o mouro a casa e de nada desconfiou, e começou então a amar muito a rapariga a ponto de se deixar dominar por ela. Um dia pediu-lhe ela que fosse ele levar uma barrica de açúcar ao seu pai, pois estava muito pobre; o mouro disse logo que sim. Ela então meteu uma das irmãs dentro da barrica e disse ao mouro que fosse depressa, que não parasse no caminho que ela o ia ver do mirante.

O mouro partiu, e ela ordenou à irmã que fosse dizendo pelo caminho estas palavras: «eu bem te vejo» para o mouro julgar que era ela que lhe falava do mirante. A rapariga dizia: «Eu bem te vejo, eu bem te vejo» e o mouro respondia: «Lindos olhos que tanto vedes; correr, correr... », e corria, corria até que chegou a casa do pai; largou a barrica e voltou para o palácio.

Passados dias, quis a rapariga mandar outra barrica ao pai, e da mesma forma mandou a outra irmã. Restava só ela; ora, isso era mais difícil; mas como era muito esperta, de que se havia de lembrar?! Fez uma boneca de palha, vestiu-lhe os seus vestidos, pô-la no mirante; meteu-se na barrica, depois de ter dito ao mouro que fosse depressa, que ela ia vê-lo do mirante. Pelo caminho foi sempre dizendo: «Eu bem te vejo, eu bem te vejo.» «Lindos olhos que tanto vedes; correr, correr.» — dizia o mouro. Assim voltaram as filhas todas para casa do seu pai; e o mouro voltou ao palácio e foi-se abraçar à boneca de palha julgando ser a rapariga, e caiu do mirante abaixo morrendo logo rebentado; o palácio e o castanheiro desapareceram, pois tudo era obra de encanto.