Multilingual Folk Tale Database


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Author: Adolfo Coelho - 1879

Original version in Portuguese

Source: Contos Populares Portuguezes (nr. 20)

Country of origin: Portugal

Story type: The Two Travelers: Truth and Falsehood (ATU 613)

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Mais vale quem Deus ajuda, que quem muito madruga

Adolfo Coelho

Era uma vez dois almocreves e iam a dizer um para o outro: «Qual vale mais, quem Deus ajuda ou quem muito madruga?» Um dizia que era quem Deus ajudava, outro que era quem muito madrugava. Foram mais abaixo e encontraram o diabo a cavalo e perguntaram-lhe:

— Ó senhor! Qual vale mais: quem Deus ajuda ou quem cedo madruga?

O diabo respondeu:

— Quem cedo madruga.

O almocreve que dizia que mais valia quem cedo madruga disse para o outro que lhe desse o burro com as fazendas que tinha apartado, mas este disse-lhe:

— Deixa-me ir mais abaixo.

Foram mais abaixo e encontraram um homem que lhes disse também que mais valia quem cedo madrugava; enfim ninguém lhe disse que mais vale quem Deus ajuda.

O almocreve tomou posse do que era do companheiro e este disse:

— Ai, senhor! Eu agora onde me hei de ir recolher que estou aqui desamparado?

E nisto foi para debaixo de uns pinheiros e disse:

— Agora ainda não fico aqui; está acolá uma luzinha tão longe a reluzir; vou-me acolá ficar debaixo daquela casa.

Foi, mas o que encontrou foi uma mina; meteu-se nela e vieram depois os diabos para cima da mina e disseram uns para os outros:

— Está ali um poço novo e andam há um ror de tempo para tirar a água a fazer barulho com picão e se pegassem e dessem no fundo uma pancada muito pequena, a água saía logo toda como uma levada; e o dono dá quatro cruzados em prata a quem lhe fizer sair a água. Ai, está a filha do rei tão mal; está um ror de médicos à roda dela e não a curam; se se pegasse numa bacia de leite e se voltasse a princesa de pernas para o ar com a boca na bacia saía logo a cobra que ela tem, que lhe e faz mal.

O almocreve, que estava a observar, foi de manhã ter com o dono do poço; desceu ao fundo; deu a pancada e logo saiu a água. Recebeu os quatro cruzados e foi-se para a terra do rei. Chegou à porta do palácio e disse aos criados que queria falar ao rei.

— Então você que quer?

— Digam lá ao rei que eu venho cá dar saúde à princesa.

Respondeu um criado:

— Estão lá um ror de médicos e não lhe dão saúde e você é que lhe há de dar saúde!...

Mas, enfim, resolveram-se a ir dizer ao rei que estava ali aquele homem. O rei chamou-o e ele foi lá acima e começou a apalpar a princesa como médico e mandou vir uma bacia de leite, e mandou pôr a princesa de pernas para o ar com a boca na bacia de leite, e saiu-lhe de dentro uma cobra e a princesa ficou boa.

O rei tinha prometido dar a princesa a quem a curasse; perguntou ao almocreve se queria casar com ela ou se queria metade do rendimento do rei e um cavalo para andar a cavalo; ele respondeu que queria dinheiro para ficar rico toda a sua vida. O rei assim fez.

O almocreve depois encontrou o outro que lhe tinha ficado com o burro e lhe disse:

— Ó homem, tu estás tão rico e eu estou tão pobre; tu de cada vez te aumentas mais.

— Olha, faz como eu fiz; vai para aqueles pinheirais; está lá uma mina; mete-te debaixo; hão de vir lá os diabos e escuta o que eles disserem.

O homem assim fez. Os diabos vieram e disseram uns para os outros:

— Ai, que cheira aqui a fôlego vivo.

E nisto vieram abaixo e bateram muita bordoada no almocreve, que morreu.