Multilingual Folk Tale Database


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Author: Adolfo Coelho - 1879

Original version in Portuguese

Source: Contos Populares Portuguezes (nr. 19)

Country of origin: Portugal

Story type: The Shift of Sex (ATU 514)

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A Afilhada de Santo António

Adolfo Coelho

Havia um pai que tinha muitos filhos a ponto de ser compadre de quase toda a gente da sua terra, pois iam ser padrinhos dos filhos dele. Nasceu-lhe mais uma filha e ele foi por um caminho fora na intenção de falar ao primeiro homem que encontrasse para padrinho da menina. Sucedeu que encontrou um frade, que logo lhe disse que estava pronto a servi-lo. Batizou-se a menina e o padrinho pôs-lhe o nome de Antónia e disse ao compadre:

— Educa a tua filha o melhor que puderes, pois quando ela tiver treze anos virei buscá-la para a colocar bem.

Passaram-se os treze anos e o pai, vendo que o padrinho não vinha buscar a filha, resolveu mandá-la servir para uma casa e ia já a caminho da cidade com ela quando lhe apareceu o padrinho e lhe disse:

— A tua filha vai servir para casa do rei, mas é preciso que ela de hoje em diante se chame António em vez de Antónia e troque os seus vestidos por um fato de homem, pois de outra forma corre risco a sua formosura na casa do rei.

Assim se fez e Antónia foi para o serviço da rainha na qualidade de pajem. Então o padrinho disse-lhe:

— Porta-te bem sempre e quando te vires nalguma aflição diz: «Valha-me aqui o meu padrinho.»

Crescia Antónia em esperteza e formosura e todos no palácio julgaram que ela era rapaz. A rainha começou a agradar-se muito do seu pajem e, vendo que ele não lhe correspondia, tratou de meter muitas intrigas ao rei para ver se conseguia que este despedisse o pajem do seu serviço. Um dia foi ela dizer ao rei que António tinha dito que era capaz de numa noite separar todo o joio da grande porção de trigo que estava nos campos pertencentes ao rei. Este chama António e ele respondeu que tal não dissera, mas que ia ver se era capaz dessa empresa. Foi então para o campo e disse:

— Valha-me aqui o meu padrinho.

Apareceu-lhe o padrinho e disse-lhe:

— Vai-te deitar sossegada que pela manhã tudo estará pronto.

E assim foi.

Ficou o rei muito satisfeito e a rainha sentindo cada vez mais paixão pelo pajem a ponto de lhe dizer que, se ele não lhe correspondesse, iria fazer com que o rei o mandasse embora do palácio. Antónia só respondeu:

— Faça Vossa Majestade o que quiser, eu não posso amá-la sem ser desleal ao meu rei.

Foi então a rainha ter com o rei e disse-lhe:

— Eu deitei ao mar o meu anel de brilhantes e António disse que era capaz de o ir apanhar.

Foi Antónia à presença do rei e respondeu que tal não dissera, mas que iria ver se apanhava o anel. Então chamou pelo padrinho e logo ele lhe apareceu e lhe disse:

— Vai pescar e o primeiro peixe que apanhares abre-o e dentro estará o anel.

Antónia assim fez e levou o anel à rainha.

A rainha, desesperada, foi ter com o rei e disse-lhe:

— António disse que era capaz de ir à moirama buscar a nossa filha que está cativa dos moiros.

Antónia disse ao rei que era capaz de lá ir. Partiu e no caminho disse:

— Valha-me aqui o meu padrinho.

Então ele lhe apareceu e disse-lhe:

— Vai, os guardas do castelo onde está a princesa hão de estar a dormir quando tu chegares; tu entras, tiras a princesa e nada mal te acontecerá. Aqui tens esta verdasquinha; hás de bater com ela três vezes na princesa, a primeira à saída da moirama, a segunda no meio do caminho e a terceira à entrada do palácio.

Antónia fez tudo como o padrinho lhe ensinara e levou a princesa para o palácio. Ora a princesa era surda-muda e a rainha disse ao rei que António dissera que era capaz de dar fala à princesa. Então o rei disse:

— António, se me deres fala à princesa, casarás com ela.

Ele então disse:

— Valha-me o meu padrinho.

Apareceu-lhe o padrinho e disse-lhe:

— Pergunta à princesa porque é que tu lhe bateste com a verdasca que eu te dei e ela te responderá.

Foi António diante do rei e da rainha e perguntou à princesa:

— Porque te dei com a verdasca

À saída da moirama?

— Foi porque a minha mãe

Três vezes te levou à cama.

— Porque te dei com a verdasca

Quando vinhas no caminho?

— Foi porque Santo António

É que era teu padrinho.

— Porque te dei com a verdasca

À entrada do palácio?

— Querias que soubesse

Que és fêmea e não macho.

O rei ficou encantado com tais maravilhas e, sabendo quanto a rainha lhe era desleal, não a quis mais por mulher e casou com Antónia, que desde esse dia começou a usar os vestidos de rainha e foi sempre muito boa, pois Santo António nunca deixou de a proteger.