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Author: Consiglieri Pedroso - 1910

Original version in Portuguese

Country of origin: Portugal

Story type: Persecuted Heroine (ATU 510A)

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A gata borralheira

Consiglieri Pedroso

Era uma vez uma mestra que era viúva e tinha uma filha muito feia. Esta mestra tinha uma menina que era muito bonita e era filha de um viajante. A mestra gostava muito do pai e dizia todos os dias à menina que lhe pedisse para ele casar com ela, que depois lhe daria sopinhas de mel.

A menina foi para casa dizer ao pai, que casasse com a mestra, que ela depois dava-lhe sopas de mel. O pai disse-lhe que não, porque ela agora dizia que lhe dava sopas de mel e depois dava-lhas de fel.

Como a menina chorasse muito, o pai, que era muito amigo dela, disse-lhe que mandava fazer umas botinhas de ferro, que as dependurava e que enquanto as botas não estivessem rotas, que não casava com a mestra.

A menina foi muito contente contar-lhe isto, e a mestra ensinou-lhe que todos os dias urinasse nas botas. A menina assim fez e no fim de algum tempo já as botinhas estavam rotas. A menina foi logo dizer ao pai. Ele então disse que casava com a mestra, e no dia seguinte casou.

Enquanto ele estava em casa era a menina tratada com muitos afagos e carícias, mas depois de ele se ir embora a mestra tratava-a multo mal.

Mandava-a ir pastar uma vaquinha, dava-lhe um pão e queria que ela o trouxesse inteiro, e uma bilha de água, e queria que ela bebesse e a trouxesse cheia.

Um dia a mestra disse à menina que queria que ela lhe dobasse umas poucas de meadas até à noite. A menina foi a chorar muito e a dizer mal à sua vida. A vaquinha disse-lhe que não se ralasse, que lhe metesse as meadas nos paus e que dobasse o linho.

Depois com um corninho tirou-lhe o miolo do pão, tornou a tapá-lo e deu-o à menina.

À noite ela veio para casa e a madrasta quando viu tudo feito ficou desesperada e queria-lhe bater, dizendo que andava ali a vaquinha, e ao outro dia mandou matá-la.

A menina pôs-se a chorar muito e a madrasta disse-lhe, que ela é que havia de ir lavar as tripas da vaquinha a um tanque.

A vaquinha disse à menina que não estivesse triste e que fosse lavar as tripas, e o que visse sair que fosse atrás dele. A menina assim fez; foi, e quando as estava a lavar viu sair uma bola de ouro e cair pela água abaixo. A menina foi atrás dela. Viu uma casa muito desarrumada e entrou a arrumar tudo. De repente sentiu passos e escondeu-se atrás da porta. Entraram três fadas que começaram à procura e vinha também um cãozinho que foi para onde ela estava e principiou a ladrar: Béu, béu, béu, atrás da porta está quem nos fez bem e nos há-de fazer! Béu, béu, béu, atrás da porta está quem nos fez bem e nos há-de fazer! Béu, béu, béu, atrás da porta está quem nos fez bem e nos há-de fazer! As fadas vieram e deram com a menina e uma disse: – Eu te fado para que tu sejas a rapariga mais bonita que haja!

Disse outra: – Eu te fado para que tu quando fores a falar não deites senão pérolas e ouro pela boca fora!

Disse a terceira: – Eu te fado para que tu sejas a rapariga mais feliz que há no mundo! Toma lá esta varinha de condão. Tudo quanto lhe pedires, tudo ela te fará.

A menina veio-se embora e a filha da mestra quando a viu pôs-se a gritar pela mãe, que viesse ver a gata borralheira. A mestra veio vê-la e perguntou-lhe o que tinha feito. A menina disse, como as fadas lhe tinham ensinado, tudo ao contrário; que tinha encontrado uma casa muito arrumada e que tinha desarrumado tudo.

A mestra mandou lá a filha e ela, mal chegou, fez o que a menina lhe tinha dito: desarrumou tudo e quando sentiu as fadas meteu-se atrás da porta. Veio o cãozinho e disse: Béu, béu, béu, atrás da porta está quem nos fez mal e nos há-de fazer! Béu, béu, béu, atrás da porta está quem nos fez mal e nos há-de lazer! Béu, béu, béu, atrás da porta está quem nos fez mal e nos há-de fazer!

Vieram as fadas e uma disse: – Eu te fado para que sejas a rapariga mais feia que há no mundo! Disse outra: – Eu te fado para que tu quando fores a falar não deites senão porcaria pela boca fora!

E disse a terceira: – Eu te fado para que tu sejas a rapariga mais pobre que há no mundo!

A filha da mestra veio para casa e julgava que vinha muito bonita. Quando chegou ao pé da mãe, começou a falar e a mãe pôs-se a chorar muito desconsolada por ver a filha assim. De raiva mandou meter a menina na cozinha, dizendo que ela era a gata borralheira e que não havia de sair mais de lá.

Um dia a mestra e a filha foram às cavalhadas, e a menina, depois de elas saírem, pediu à varinha de condão que lhe desse um vestido muito rico, botas e chapéu, tudo completo. Depois arranjou-se, foi para as cavalhadas e ficou mesmo defronte da tribuna do rei.

A filha da mestra viu-a e pôs-se a gritar no meio de todos: – Ó mãe, ó mãe, aquela é a gata borralheira!

A mãe entrou a dizer-lhe que não era, que se calasse, porque a gata borralheira tinha ficado em casa, fechada à chave.

A menina, ainda bem não estavam acabadas as cavalhadas foi-se embora, mas o rei ficou muito apaixonado por ela.

A mãe mal chegou a casa perguntou à gata borralheira se tinha saído. Ela disse que não e mostrou a cara toda mascarrada.

No outro dia pediu a menina à varinha de condão que lhe desse um fato ainda mais rico. Arranjou-se e foi outra vez para as cavalhadas.

O rei mal a viu ficou muito contente, mas ainda bem não estavam as cavalhadas acabadas, a menina meteu-se na carruagem e foi-se embora.

O rei com mais paixão ficou ainda por ela.

No terceiro dia pediu a menina à varinha de condão que lhe desse outro fato ainda mais rico e outros sapatos, e foi para as cavalhadas.

O rei quando a viu ficou muito satisfeito, mas ainda bem não estavam as cavalhadas acabadas, já a menina se tinha vindo embora.

A menina quando ia a entrar para a carruagem, com a pressa deixou cair um sapato. O rei apanhou-o, depois foi para o palácio e adoeceu de paixão. O sapato tinha umas letras, que diziam: Este não servirá senão à própria dona.

Correu-se todo o reino para ver a quem servia o sapato. A ninguém servia.

Já não faltava senão a casa da mestra, e ela foi ao paço a ver se o sapato lhe servia; mas não o pôde calçar. Depois foi a filha da mestra, mas também o não pôde calçar. Faltava só a gata borralheira. O rei perguntou quem vinha agora provar o sapato e se havia mais alguém naquela casa. A mestra respondeu que não havia ninguém. O rei disse que havia de haver por força. A mestra tornou a dizer que não havia ninguém; mas o rei tornou a teimar e a dizer-lhe que havia de haver alguém a quem servisse aquele sapato. A mestra disse então que só havia uma gata borralheira, mas que ela não calçava desses sapatos. O rei ordenou-lhe então que a trouxesse ali, e a mestra não teve mais remédio senão trazer a menina. O rei então provou-lhe o sapato, que lhe serviu logo. Depois mandou-a vir para o palácio, casou com ela e mandou matar a mestra e a filha.