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Author: Adolfo Coelho - 1879

Original version in Portuguese

Source: Contos Populares Portuguezes (nr. 07)

Country of origin: Portugal
  - Region: Ourilhe

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A Raposa e o Lobo

Adolfo Coelho

Era uma raposa e viu uns cães de caça e elles disseram-lhe: — O comadre anda aqui para onde a nós; veiu agora uma ordem dos bixos não fazerem mal uns aos otros.» Ella disse-lhe : — «Eu venho logo que vou ver se aquelle meu compadre se quer utilisar da mesma ordem e vir para aqui onde a nós.» O compadre era um gallo. N'isto passou aí um caçador e disse-lhe : — «Ó raposa, queres tu gallinhas? — «Eu quero.» — «Pois então anda á tarde a minha casa que eu tenho lá uma capoeira d'ellas.» — O caçador tinha uma dúzia de cães do caça mettidos n'uma córte e soltou os cães á raposa. N'isto ella deitou a correr e o gallo estava em cima d'uma parede o gritava-lhe: «Mostra-lhes a ordem, mostra-lhes a ordem.» A raposa escapou-se dos cães o foi a um campo que tinha o tal caçador e que era de milho; soltava para dentro — alagava uma pedra; saltava para fora — alagava outra, até que fez um portello por onde podia passar o gado. Viu um burro e disse-lhe: — «O compadre, queres milho? — » Quero. — «Então entra para dentro que eu hei de pagar ao caçador o engano que elle me fez.» O burro comeu tanto milho que lhe saíu o sesso defóra; depois veio um corvello e a raposa disse-lhe: — «O compadre, queres tu carne? — » Eu quero, sim.» — «Pois então vae alli.» E indicou-lhe o sesso do burro onde elle foi picar e o burro enganou o aos couces. Depois a raposa encontrou um lobo e disse-lhe: — » Ó compadre, queres tu? vamos tomar um afilhado. Foram para deante e encontraram uma gente que estava a fazer um molho de centeio e vae ella disse-lhe : — «Olha, ó compadre, chega-te ali pr'a o pé d'aquelles homens da malha que elles dão atraz de ti e em-no entanto, pilho-lhes eu a panella do arroz.» Assim fizeram; os homens deram atraz do lobo o a raposa metteu a cabeça dentro da panella, comeu o que poude e quebrou a panella; chegou ao pé do lobo:— «Como passaste, compadre?» — «Ora; deram com as malhas atraz de mim que estou morto de cançaço.» — «Olha pr'a mim; quebraram-me a cabeça que até estou com os miolos fóra.» Os miolos eram os grelos do arroz que tinha na cabeça.

O lobo disso-lhe que lho deixasse lamber os miolos que eram muito bons. Depois ella disse-lho: — «Deitemo-nos agora aqui um pouco que eu venho muito enfadada. » Ella deixou adormecer o lobo e foi tomar o afilhado, que era comer um cabrito.

Depois toparam um velho n'uma cozinha e disseram-lhe: — «Ó velhote, queres que nós vamos fazer uma boda?» Depois juntaram-se o lobo, a raposa e um coelho; o lobo devia de levar um cabrito, a raposa uma gallinha e o coelho a salsa. Assim fizeram. O velho foi o primeiro que chegou com um raminho de salsa e o velho atirou-lhe com um páo o matou-o; ao lobo metteu-lhe um espeto pelo c... e á raposa pegou-lhe pelo rabo e arrastou-a pelo borralho. Fugiram a raposa e o lobo o quando estavam longe, disse o lobo: — «Não vamos lá; o diabo do velho metteu-me um dedo tão quente, tão quente pelo c... acima que parecia um espeto quente.» Depois disse a raposa: — «Eu vou ver o que o velho faz; se elle estiver a dormir ainda lhe vamos pilhar a boda.»

Chegou lá á porta e o velho que tinha acabado de comer estava a limpar as barbas com um panno. Ella chegou ao lobo e disse: — «Olha, compadre; vamo-nos embora que o velho está a puxar por as barbas que nós que lh'a havemos de pagar, que nos ha de matar.» — «Pois vamo-nos embora.»

Vinham para casa e anoiteceu-lhes no caminho e viram a sombra da lua n'um poço. Disse então a raposa. — «Olha que ali n'aquelle poço está uma broa dentro; vamos tiral-a» — «Nós como é que havemos de fazer? — »

Olha' bebemos a agua; enchemos a barriga o depois vamos mijar e assim tiramos a agua do poço.» Foram beber, mas a raposa não bebia quasi nada porque apenas tinha bebido alguma agua dizia : —«Ai, tenho a minha barriga tão cheia.» Mas o pobre do lobo bebia muito e tanto bebeu que arrebentou e morreu.

Depois a raposa juntou-se e mais a garça para fazerem um caldo de farinha; a garça fez o caldo n'uma almotolia; metteu o bico e bebeu tudo, porque a raposa não podia bebel-o pela almotolia. Depois a garça disse-lhe: — «Tu já me convidaste para a tua boda; agora vou-te eu convidar para uma boda que ha no ceo.» — «Eu como hei de ir?» — «Vaes nas minhas azas.»

Foi; a garça assim que estava mais enfadada disse-lhe: — «Tem-te, comadre, emquanto eu escupo em mão.» Larga a raposa e esta quando vinha a cair dizia

— «Isto vae de déo em déo; Se eu d'esta escapo Não torno ás bodas ao céo.»

Estava da banda de baixo um penedo grande e ella disse: — «Arreda, lage, que te parto.» N'isto caiu sobre a fraga e arrebentou.