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Author: Teófilo Braga - 1883

Original version in Portuguese

Source: Contos Tradicionais Portugueses (nr. 1.26)

Country of origin: Portugal
  - Region: Algarve

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O Peixinho Encantado

Teófilo Braga

Era uma pobre mulher, que tinha um único filho, e demais parvo, e não queria trabalhar. Coitadinha, não lhe servia senão para comer. Um dia que ia para o mato buscar lenha um rapazinho da vizinhança, ela pediu-lhe para que levasse consigo o tolinho, e lhe ensinasse a fazer um feixinho. Quando chegaram ao monte, o rapaz foi cortar dois molhos de lenha, e o parvo pôs-se a brincar ao pé de uma ribeira. Ali esteve sem pensar em nada, a ver os peixinhos na água; eis senão quando salta um peixinho mesmo às abas do parvo, que lhe botou logo as unhas. O peixinho, assim que se viu nas mãos do parvo, disse-lhe:
-- Não me mates, que em paga, quando quiseres alguma coisa, basta dizeres: «Peço a Deus e ao meu peixinho que me dê tal e tal, que tudo há-de sair como pedires.»
O parvo, assustado, deixou o peixinho cair-lhe da mão, e logo desapareceu na ribeira. O outro rapaz bem chamava por ele para vir erguer o seu molho; ele foi, e quando viu que o molho era pesado disse:
-- Peço a Deus e ao meu peixinho que me ponha a cavalo neste feixe de lenha.
Saltou para cima do molho, que o levou a galope pelo mato fora e por toda a cidade até chegar a casa da mãe.

O rei estava à janela do palácio, e ficou admirado; chamou a filha:

-- Vem ver o parvo a cavalo num feixe de lenha.
A princesa desatou a rir, quando o viu; mas o parvo disse baixinho:
-- Peço a Deus e ao meu peixinho que a princesa tenha um menino meu.
Tempo depois começou a princesa a padecer; todos os médicos foram de opinião que a princesa andava ocupada. O rei ficou desesperado e pedindo por todos os santos à filha que lhe dissesse quem tinha sido o causador de uma tal vergonha. A princesa jurava por tudo que não sabia explicar aquilo; o rei mandou botar um pregão de que quem viesse confessar que era pai do menino casaria com a princesa.
Depois de tempo, veio o parvo ao palácio para falar ao rei:
-- Venho dizer a Vossa Real Majestade que eu é que sou o pai do menino da princesa.
O rei ficou espantado. A princesa não compreendia o que estava ouvindo. O parvo contou então o acontecido. O rei, para se confirmar, disse-lhe:
-- Pois pede ao teu peixinho que te faça aparecer agora aqui muito dinheiro.
O dinheiro caiu-lhe de todos os lados.
-- Pede agora ao teu peixinho que te faça um moço muito perfeito e esperto.
O parvo ficou desde logo mais formoso que todos os príncipes; casou com a filha do rei, e pela sua grande esperteza ficou governando.