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Author: J. Leite de Vasconcellos - 1925

Original version in Portuguese

Source: Contos Populares e Lendas

Country of origin: Portugal

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O Cabritinho

J. Leite de Vasconcellos

Uma tardezinha, era quase noite, vinha um homem a descer pelo caminho que vai directamente do Casal do Monte até à igreja da Póvoa, e ao chegar à encruzilhada viu um cabritinho aos saltos na ribanceira. O homem parou e disse lá para si: «Olha que cabritinho tão bonito! Mas como é que anda aqui o animal a estas horas?!» E vai, foi-se chegando para ele e pôs-se a fazer-lhe festas; e o cabritinho a deixar, muito contente! Então o homem, lá para si, resolveu levar o cabrito, e assim fez: meteu-o debaixo de um braço e abalou a descer. Mas tinha andado só uns passos e já não podia com o braço, cansado com o peso do cabrito; passou-o para o outro lado, tornou a andar, e a mesma coisa! Teve de arriar. «O raio do cabrito sempre pesa que parece que tem chumbo! Nada, o melhor é levá-lo às costas…» E assim fez, pôs o animal às costas. Mas o cabrito cada vez pesava mais! Vinha o homem no sitio que se chama o Alto do Pinheiro, por causa dum pinheiro que aqui havia que não era como os outros: o tronco a meia altura, quebrava para baixo e depois tornava a subir, fazia assim, parecia uma sela. Vinha o homenzinho no Pinheiro Torto e já não se podia mexer; até que a coisa lá lhe parecia história, e arrumou com o animal para o meio do chão: «Vai-te, diabo, que és coisa ruim!» O cabrito abalou logo a fugir. Então é que o homem viu que era o Diabo, — que até fazia faíscas no chão. «Ora até que enfim que já achaste quem andasse contigo às costas!».

Como o Diabo aparecia todas as tardes na encruzilhada dos Quatro Caminhos, fizeram o nicho com o Senhor, chamado da Ribeira, e o Diabo não tornou a aparecer. O nicho foi parcialmente destruído quando da implantação da República; ainda se vêem ao pé dele os restos da Cruz cimeira de calcário; ainda conserva a gradezinha de ferro a fazer de porta. Dentro estava a imagem do Senhor, alumiada com uma lâmpada, e as esmolas deitavam-se através da grade para uma covinha do fundo.